Apesar da sua popularidade entre os utilizadores preocupados com a privacidade, a plataforma de mensagens Telegram(nova janela) continua a suscitar dúvidas entre os especialistas técnicos.

Um relatório da Symbolic Software(nova janela), publicado em outubro de 2025 mas que está agora a receber uma nova atenção(nova janela), veio adensar o debate. O documento defende que o design do Telegram permite que os intermediários de rede liguem mensagens enviadas através do Telegram a um dispositivo específico, o que pode, consequentemente, permitir a monitorização de indivíduos específicos no mundo real.

As preocupações também aumentaram com a detenção em França, em 2024, do fundador e CEO do Telegram, Pavel Durov, com base numa ampla gama de acusações(nova janela) que alegam que não combateu a fraude, o tráfico de droga, o crime organizado e a promoção do terrorismo na sua plataforma. Embora recuse as acusações e tenha entretanto sido libertado(nova janela), continua sob investigação.

Então, será que o Telegram é seguro de utilizar? Como discutiremos neste artigo, isso depende muito da forma como o utiliza.

O que é o Telegram?

O Telegram é uma aplicação de mensagens de código aberto e baseada na nuvem que lhe permite enviar mensagens de texto, mensagens de voz, fotos, vídeos e ficheiros de vários tipos. Foi lançado em 2013 por Pavel e Nikolai Durov, irmãos que também fundaram a rede social russa VK(nova janela) (do seu nome original, VKontakte).

Contando atualmente com mais de mil milhões de utilizadores ativos mensais, o Telegram é extremamente popular, em grande parte devido à perceção generalizada de que é altamente seguro. Esta perceção é ainda mais reforçada pelo facto de vários governos tentarem bloquear ou proibir a aplicação, nomeadamente a Indonésia, a Rússia e o Irão.

Para que serve o Telegram?

O Telegram pode ser utilizado como um serviço de mensagens privadas individual ou de grupo, tal como o WhatsApp(nova janela) e o Signal(nova janela). No entanto, é a capacidade de criar “canais” públicos que realmente distingue o Telegram.

Os utilizadores podem criar e publicar conteúdos em canais, que podem atrair um número ilimitado de subscritores. Esta funcionalidade tornou-se particularmente popular em países com censura rigorosa, como o Irão, onde o Telegram conta com mais de 40 milhões de utilizadores, apesar dos esforços do governo para bloquear o acesso.

Os canais públicos podem ser criados utilizando um alias e um URL exclusivo, permitindo que qualquer pessoa se possa subscrever. Isto faz do Telegram uma plataforma eficaz para organizar a resistência e divulgar informações (embora também possa ser explorado para fins menos recomendáveis).

Quão seguro é o Telegram?

O Telegram tem a reputação de utilizar encriptação ponto a ponto, mas este nível de encriptação não está ativado para todos os casos de utilização e não vem ativo por predefinição. Muitas das funcionalidades mais populares do Telegram, como os canais, não são encriptados de ponto a ponto, o que significa que a empresa consegue ver grande parte dos dados de utilizador na aplicação, tornando-a suscetível a vigilância e incidentes de dados.

Infográfico sobre quão seguro é o Telegram

O que sabe o Telegram sobre mim?

Para utilizar o Telegram, deve registar-se utilizando o seu número de telemóvel real. O Telegram solicita acesso aos contactos do seu telemóvel para descobrir outros utilizadores que possa conhecer, ou pode adicionar outros utilizadores do Telegram manualmente através do número de telemóvel deles.

O Telegram pede o seu primeiro nome (que não verifica) e o fornecimento de um apelido é opcional.

Encriptação do Telegram

Todas as comunicações do Telegram (sejam E2EE ou de outro tipo, as quais discutiremos abaixo) são protegidas através do protocolo interno MTProto. O MTProto v.1.0 original, que está obsoleto e em fase de descontinuação, foi criticado(nova janela) por especialistas em segurança por ser propenso a vários ataques bastante simples. No entanto, o MTProto 2.0(nova janela) foi formalmente verificado(nova janela) como sendo criptograficamente seguro.

As chaves de encriptação utilizadas para proteger as conversas são divididas em partes na própria infraestrutura global segura na nuvem do Telegram e nunca são armazenadas no mesmo local que as informações que protegem.

O Telegram é encriptado de ponto a ponto?

O Telegram suporta “conversas secretas”. Isto fornece encriptação ponto a ponto (E2EE) para conversas individuais de texto, voz e vídeo.

Saiba mais sobre encriptação ponto a ponto(nova janela)

Mas (e este é um grande “mas”):

  • As conversas de grupo e os canais não podem ser encriptados de ponto a ponto
  • As conversas individuais não são encriptadas de ponto a ponto por predefinição. As “conversas secretas” têm de ser ativadas manualmente para cada conversa individual (pelo que não existe uma opção global) e importa notar que a opção de conversa secreta não é muito óbvia. 

O Telegram recolhe metadados?

De acordo com a sua política de privacidade(nova janela), o Telegram “pode recolher metadados como o seu endereço IP, dispositivos e aplicações Telegram que tenha utilizado, histórico de alterações de nome de utilizador, etc. Se forem recolhidos, estes metadados podem ser mantidos por um período máximo de 12 meses”.

Como o antigo diretor da NSA e da CIA, Michael Hayden, outrora observou(nova janela): “Matamos pessoas com base em metadados”, e esta é uma quantidade não insignificante de metadados (especialmente o registo do seu endereço IP).

Os metadados também estão no centro das preocupações levantadas pelo relatório da Symbolic Software. Embora o conteúdo das mensagens em si possa estar eficazmente encriptado, o identificador de dispositivo persistente enviado com cada mensagem não está, concluiu o relatório. Quando combinado com dados da rede móvel e outras informações que já estão registadas e sujeitas a leis de retenção de dados, este identificador, etiquetado como auth_key_id, permitiria a intermediários de rede como os ISPs, administradores de rede e agentes estatais monitorizar a atividade e os movimentos de utilizadores específicos do Telegram, de acordo com o Organized Crime and Corruption Reporting Project(nova janela).

Como referiu Paul Walsh, um analista de cibersegurança que escreveu no LinkedIn(nova janela): “Um operador que observe o fluxo de tráfego de entrada e saída nos servidores do Telegram pode fazer corresponder o tempo e o tamanho dos pacotes de cada lado e emparelhar os dois dispositivos numa conversa, mais uma vez sem ler uma única palavra.”

O Telegram, por sua vez, rejeita as acusações mais recentes. “Qualquer observador que consiga ver o seu auth_key_id também consegue ver o seu endereço IP, os nomes dos servidores a que se liga, os seus padrões de tráfego, as suas consultas de DNS e muito mais. Ocultar um identificador que roda frequentemente fecha uma janela num edifício feito maioritariamente de vidro”, escreveu num comunicado(nova janela) enviado ao Important Stories, um parceiro do OCCRP que promove o relatório.

Quão seguro é o Telegram? Depende de como o utiliza

À excepção de algumas preocupações persistentes sobre a quantidade de metadados que o Telegram recolhe, as “conversas secretas” individuais encriptadas de ponto a ponto são provavelmente seguras. Lembre-se apenas de que estas têm de ser iniciadas manualmente — por predefinição, as conversas individuais não são seguras. Vale a pena notar que muitas outras aplicações (como o Signal ou até o WhatsApp) oferecem o mesmo nível de funcionalidade, mas com E2EE por predefinição.

O que distingue o Telegram (e é a principal razão para a sua enorme popularidade) são os canais, e estes (assim como as conversas de grupo) não são seguros de utilizar. Sem encriptação ponto a ponto, o Telegram (ou qualquer pessoa que consiga pressionar o Telegram ou obter acesso aos seus sistemas) pode ler tudo o que é publicado nessas conversas. E dado que todos os utilizadores do Telegram são identificados pelos seus números de telemóvel reais (que podem ser ocultados de outros utilizadores nos canais, mas estão visíveis para o Telegram), podem ser facilmente identificados.

Apesar destes problemas, o Telegram continua a ser muito popular — nomeadamente em países restritivos onde muitas pessoas dependem da plataforma para obter notícias objetivas e para se organizarem. Embora recomendemos a utilização de opções mais seguras, o Proton VPN permite-lhe aceder ao Telegram, mesmo em locais onde governos autoritários tentam bloqueá-lo. Resumindo:

O Telegram é seguro?

Embora por vezes seja útil, o Telegram não é seguro e deve ser utilizado com extrema cautela:

  • As conversas de grupo pelas quais o Telegram é conhecido não são encriptadas de ponto a ponto (E2EE) e, como tal, não são seguras
  • As conversas individuais podem ser protegidas individualmente utilizando E2EE, mas não são seguras por predefinição
  • Os utilizadores do Telegram podem ser facilmente identificados pelo seu número de telemóvel real