Após uma pesquisa de vários meses com mais de 7.000 aplicativos de VPN para dispositivos móveis em todo o mundo, a Proton descobriu que 85% dos baixados nos EUA contêm rastreadores, e cerca de um quarto deles rastreia ativamente a localização física dos usuários.

Talvez ainda mais preocupante, também descobrimos que 64 das 390 VPNs baixadas da App Store e do Google Play nos EUA pertencem a empresas chinesas, legalmente obrigadas a compartilhar dados com seu governo autoritário.

Considerando que a maioria das pessoas que usa uma rede privada virtual o faz justamente para proteger a própria privacidade, os riscos são evidentes. E, apesar das promessas de proteger o público, o Google e a Apple permitiram que essas VPNs suspeitas fossem baixadas mais de 13,2 milhões de vezes somente em junho de 2026.

Metodologia

Analisamos os downloads gratuitos da loja Google Play. Os números mensais de downloads são estimativas da AppTweak para o mês de maio. Para a contagem de rastreadores, usamos dados do Exodus Privacy(nova janela), uma plataforma de código aberto que analisa aplicativos Android para detectar as assinaturas de código de rastreadores de análise, publicidade e criação de perfis.

Como as VPNs deveriam funcionar

Quando você usa uma VPN, espera privacidade. Uma VPN de confiança impede que os sites vejam seu endereço IP real e evita que seu provedor de serviços de internet (e, por consequência, o seu governo) saiba o que você faz on-line.

As VPNs passaram a fazer parte do dia a dia de até 100 milhões de americanos(nova janela). Basta passar alguns minutos no YouTube para quase certamente encontrar um anúncio de VPN, geralmente promovida como ferramenta essencial para privacidade, segurança e para contornar a censura.

Para os serviços mais confiáveis, essa afirmação se sustenta em grande parte. Mas isso, por si só, pode criar uma falsa sensação de segurança para milhões de consumidores tentados pelas VPNs gratuitas que aparecem em destaque nas lojas de aplicativos, além de ocultar o fato de que muitas VPNs duvidosas fazem exatamente o oposto do que você esperaria delas.

Quem é o dono da sua VPN?

Quando o assunto é VPN, transparência é essencial.

Você deveria saber quem é o dono da empresa à qual confia a sua privacidade. Nossa análise constatou que dezenas de VPNs disponíveis nos EUA pertencem a empresas sediadas em jurisdições com leis invasivas de vigilância de dados. Talvez não seja surpresa que muitas se esforcem bastante para ocultar esse fato.

Das VPNs que estudamos, 64 pertencem a empresas chinesas. Pela lei chinesa, as empresas são obrigadas a disponibilizar dados de usuários(nova janela) ao governo mediante solicitação. O que torna isso pior é que 31 dessas VPNs de propriedade chinesa ocultam ativamente a real propriedade por trás de empresas de fachada registradas em lugares como Singapura, Hong Kong (RAE da China) e o Reino Unido.

Usuários nos EUA baixaram esses aplicativos chineses duvidosos mais de 3 milhões de vezes ao longo de um mês.

Para onde vão seus dados?

Até mesmo VPNs que não pertencem diretamente a empresas sediadas em países conhecidos por suas práticas de vigilância em massa podem colocar em risco a privacidade dos usuários.

Nossa análise constatou que 85% das VPNs disponíveis nos EUA contêm rastreadores projetados para coletar e compartilhar dados de usuários altamente pessoais. Isso pode incluir o ID exclusivo do seu dispositivo (GAID), o modelo do dispositivo, o tipo de rede, o nome da operadora de celular e muito mais.

Rastreadores que enviam dados paraDownloads em junho
China1,5 milhões
Rússia1,4 milhões
Israel2,6 milhões
As três800.000
Países dos Cinco Olhos4,6 milhões

Muitos desses aplicativos pertencentes a empresas dos EUA firmaram acordos comerciais com empresas estrangeiras, incorporando seu software de rastreamento como parte do negócio. Normalmente, elas enxergam os aplicativos de VPN (muitas vezes adquiridos como produtos white-label prontos para uso) como apenas mais uma categoria popular de aplicativos que, como os jogos, pode ser monetizada por meio de publicidade.

É simplesmente assim que a indústria de aplicativos móveis funciona. E em um mundo onde as lojas de aplicativos ficam com cerca de 30% da receita de vendas, não surpreende que os provedores de aplicativos optem por monetizar seus produtos com publicidade que invade a privacidade, em vez de assinaturas pagas antecipadamente.

Mas aplicativos de VPN não são jogos. Milhões de americanos os usam para proteger a própria privacidade, não para vendê-la a empresas de tecnologia publicitária, muitas delas sediadas em países cujos governos são hostis à privacidade e, em muitos casos, também hostis aos interesses dos EUA.

Embora seja difícil saber exatamente o que é feito com seus dados, há sinais preocupantes. Três dos serviços de VPN que analisamos pertencem, na verdade, a empresas de pesquisa de mercado: ‎Phone Guardian Safe WiFi (Sensor Tower(nova janela)), My Mobile Secure VPN (Comscore(nova janela)) e Urban VPN (BiScience(nova janela), que, conforme mostrado(nova janela), captura conversas de usuários em vários serviços e as compartilha com plataformas de chat com IA).

Algumas VPNs rastreiam sua localização

Naquilo que muitos podem razoavelmente considerar o derradeiro ato de traição, 64 aplicativos de VPN rastreiam ativamente sua localização física usando GPS e outros dados de geolocalização. Qualquer pessoa com acesso a esses dados pode ver se você está em um protesto ou se reunindo com um jornalista, advogado ou fonte, e, por fim, compartilhar essas informações com forças policiais ou serviços de inteligência.

Esses aplicativos incluem algumas das VPNs mais populares nos EUA, como VPN Proxy Master, VPN-Fast VPN Super e X-VPN, e, juntas, foram baixadas mais de 3 milhões de vezes em junho. Isso significa que cerca de 20% de todos os downloads de VPN do nosso conjunto de dados vêm de aplicativos que rastreiam onde você está, provavelmente justamente o que você instalou uma VPN para evitar.

E esses dados de rastreamento muitas vezes são disponibilizados a governos em que é difícil confiar.

As lojas de aplicativos lucram com a vigilância

A Apple e o Google se vangloriam publicamente de seus atributos em privacidade. No entanto, esses aplicativos, capazes de rastrear tudo o que você faz on-line e de enviar seus dados pessoais a empresas de tecnologia publicitária, podem ser baixados livremente nas lojas de aplicativos delas, sem nenhum rótulo de aviso.

Embora as lojas de aplicativos exijam que os desenvolvedores de VPN submetam suas identidades e suas políticas de privacidade, elas dependem fortemente da autodeclaração e fazem pouco para verificar o que lhes é informado. A Apple e o Google verificam se a documentação existe, mas não auditam de forma independente se uma VPN realmente se comporta conforme sua política de privacidade afirma.

Apesar de suas alegações de privacidade, a Apple e o Google priorizam o lucro em detrimento dos melhores interesses de seus usuários. Normalmente, cobram uma comissão de cerca de 30% sobre toda a receita gerada por compras dentro do aplicativo e assinaturas. A Apple, em particular, procura justificar essa comissão alegando que ela é necessária para cobrir os custos de análise e curadoria de aplicativos a fim de manter os usuários seguros (apesar de evidências confiáveis de que embolsa 78% dessas tarifas(nova janela) como lucro puro).

O modelo centrado no lucro também é amplamente ilustrado pela disposição da Apple de cooperar com ordens autoritárias do governo chinês, o que resultou na indisponibilidade de 66 dos 100 aplicativos mais populares do mundo para usuários de iOS na China.

Muitos deles são aplicativos de notícias (incluindo nomes como The New York Times, BBC News e Reuters), o que mostra que a Apple não hesita em ajudar o regime de censura do governo chinês em troca de acesso ao mercado chinês altamente lucrativo. A empresa até ameaçou remover o Proton VPN(nova janela) porque a descrição na App Store dizia que nosso aplicativo podia ser usado para “desbloquear sites censurados”.

O resultado? VPNs ligadas a regimes autoritários, que têm acesso a todo o seu tráfego, incluindo sua navegação na web, o uso que você faz de aplicativos e suas informações pessoais, rastreiam seu comportamento on-line para fins publicitários.

Então, o que pode ser feito a respeito?

Permitir que esses aplicativos suspeitos existam em suas plataformas é uma negligência de dever tanto com os consumidores quanto com os desenvolvedores. Isso é inaceitável. Por isso, instamos a Apple e o Google a:

  • Realizar verificações forenses de segurança e de propriedade mais rigorosas nos aplicativos de VPN (sem simplesmente confiar na autodeclaração)
  • Remover das lojas de aplicativos todos os aplicativos que não atendam a essas verificações
  • Oferecer mais transparência sobre todos os aplicativos de VPN, para que as pessoas possam tomar decisões informadas sobre em quais confiar. Isso inclui fornecer informações sobre onde uma empresa está (realmente) sediada e o que ela faz com seus dados

Para que essa transparência seja eficaz, a Apple e o Google precisam usar uma pequena fração de seus vastos recursos para investigar os serviços e confirmar que são aquilo que dizem ser.

O que você pode fazer para se proteger

Para proteger sua privacidade com uma VPN de forma segura:

  • Use um serviço com propriedade transparente e sediado em um país com leis de privacidade de verdade
  • Confie apenas em VPNs que tenham sido auditadas de forma independente

Não há desculpas

Como toda a sua atividade na internet passa pelos seus servidores, qualquer VPN tem o potencial de acessar uma grande quantidade de informações altamente pessoais sobre você, sua vida, suas inclinações políticas, o que você gosta de comprar, seus hobbies e interesses. Mesmo que a privacidade não seja uma preocupação principal ao escolher um aplicativo de VPN, você deveria se preocupar com empresas obscuras e que não prestam contas com links para lugares como a China e a Rússia, onde o governo tem acesso irrestrito a todos os dados.

No total, 85% dos aplicativos que estudamos nos Estados Unidos estão se comportando de maneiras contrárias à forma como são comercializados e ao que você esperaria razoavelmente de um serviço de VPN. Isso é injustificável.

Muitos desses aplicativos podem alegar que essa coleta de dados é feita apenas para otimizar o desempenho. Mas o fato de que podem coletar esses dados, e de que grande parte deles é enviada para lugares como a Rússia e a China, é motivo de grave preocupação.

Felizmente, existem serviços de VPN confiáveis que realmente se preocupam em proteger sua privacidade. Entre eles está o Proton VPN, que oferece um serviço de VPN 100% gratuito com aplicativos de código aberto, sem anúncios, sem limites de dados e uma rigorosa política de inexistência de registros, auditada de forma independente e respaldada pelas leis suíças de privacidade.

Como fazemos isso? É bem simples. Financiamos nosso plano gratuito de forma transparente com um serviço premium que oferece uma série de recursos avançados (mas totalmente opcionais). Afinal, na Proton, acreditamos que a privacidade não deve vir com condições ocultas.


Imagem de capa por Bernard Leonardo.